No dia mundial da poesia não podia faltar um poema português:
Gota de água
Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
as lágrimas são minhas
mas o choro não é meu.
António Gedeão
Tuesday, March 21, 2006
Tuesday, March 14, 2006
MELANCHOLIA
Um poente da cor do passado
um sépia quase sangue
um olhar sonolento para longe
um horizonte perdido
uma torre tombada
no xadrês do tempo
não há como voltar
à grandeza de ontem
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
e rói a melancolia
um barquinho moderno no mar
com alma de argonauta
um herói cego por tanto ver
um velho sem comer
uma canoa no Tejo
um fado na taberna
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
e rói a melancolia
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
velha melancolia
Carlos Tê
Um poente da cor do passado
um sépia quase sangue
um olhar sonolento para longe
um horizonte perdido
uma torre tombada
no xadrês do tempo
não há como voltar
à grandeza de ontem
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
e rói a melancolia
um barquinho moderno no mar
com alma de argonauta
um herói cego por tanto ver
um velho sem comer
uma canoa no Tejo
um fado na taberna
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
e rói a melancolia
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
velha melancolia
Carlos Tê
Tuesday, March 07, 2006

Se houvesse degraus na terra...
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder
Thursday, March 02, 2006
Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas sim em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.
Jose Luis Peixoto, in Nenhum Olhar
Jose Luis Peixoto, in Nenhum Olhar
Subscribe to:
Posts (Atom)